Período de Formação

“Rio Grande do Norte
Capital Natal
em cada esquina um poeta
em cada beco um jornal.”
(Adágio de autoria desconhecida)
Saudações, leitores e leitoras!
Esse espaço virtual foi pensado para reunir as vozes femininas da Literatura Potiguar. Para isso, utilizamos um critério mais amplo: catalogar as autoras nascidas ou não no Rio Grande do Norte, que contribuíram para a formação e o crescimento da literatura do Estado.
Avisamos de antemão que o Portal está em construção, haja vista que nossa equipe de pesquisa continua resgatando os nomes silenciados, catalogando-os juntamente com os das autoras já reconhecidas. Como todo grupo de pesquisa, dependemos dos editais de fomento para colocarmos em prática o nosso lema: nenhuma a menos.
O PERÍODO DE FORMAÇÃO corresponde aquele cujas vozes trabalharam a noção de “terra natal” ainda de forma intuitiva. Nosso ponto de partida, que chamamos de marco zero, é o período mais árido, tendo em vista que os registros sobre o período são escassos. Nossa data de referência é o ano de 1830, quando a primeira escritora potiguar colaborou com os jornais da época, Nísia Floresta Brasileira Augusta.
Encontramos referências feitas por Câmara Cascudo a respeito de possíveis modinheiras, nossas primeiras trovadoras. Contudo muitas são mencionadas, carecendo de registro escritos das suas composições. Nessa época, a produção oral é a que reverbera na cultura potiguar, já que as mulheres e os pobres não tinham acesso à escolarização, de forma que, nossas primeiras manifestações literárias foram produzidas por mulheres cujas famílias faziam parte da elite da época.
Além disso, recuando um pouco até o primeiro século após a chegada dos portugueses no RN, a Capitania do Rio Grande do Norte esteve em mãos francesas, foi saqueada e invadida pelos holandeses que a ocuparam por duas décadas, sempre sob ameaça de conflito de uma “civilização” construída a ferro e a fogo, repleta de conflitos entre os povos originários e os portugueses. A subordinação a Pernambuco até 1817 contribuiu para o isolamento da região em todos os aspectos. De forma que, somente após a promulgação da Lei Estadual n. 145, de 06 de agosto de 1900, de autoria do escritor Henrique Castriciano, a qual prevê a edição de livros considerados úteis à cultura do estado, é que começa o marco jurídico para tornar possível a valorização dos escritores potiguares.
Esperamos fazer desse espaço um memorial que trará partes de nossa identidade, servindo de referência para pesquisadores, estudantes e curiosos sobre a nossa cultura.

Nísia Floresta Brasileira Augusta é o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, nascida em Papari/RN, atual Nísia Floresta, no dia 12 de outubro de 1810. Educadora, revolucionou a educação brasileira ao pensar em escolas mistas e com o currículo equiparado para todas as pessoas, situação que a tornou alvo de críticas pelos conservadores da época. Escritora pertencente ao Período Literário de Formação, movimento pioneiro, visto que, nessa época, a literatura manifestava, de maneira intuitiva, a noção de terra natal.
Além de ser um destaque na educação, foi escritora, traduzindo livremente a obra Woman not inferior to man, de Mary Wortley Montagu, para o português como Direitos das mulheres e injustiça dos homens, publicado em 1832, que colaborou para a mudança da mentalidade das mulheres brasileiras, impulsionando-as na luta pelos direitos civis.
Por escolher esse título para a tradução brasileira e mesmo tendo afirmado que seu texto era uma tradução livre do Vindication de Mary Wollstonecraft, a publicação brasileira, na verdade, era uma tradução do livro de Sophie, pseudônimo de Mary Wortley Montagu (1689-1762), que escreveu Woman not inferior to man, em 1739. Independentemente da verdadeira autoria do livro traduzido e publicado no Brasil, é certo que as publicações de Nísia Floresta contribuíram para que o nome de Mary Wollstonecraft fosse identificado com a defesa dos direitos das mulheres em pleno século XIX.
Abraçou em sua escrita a luta indigenista e abolicionista. Em 1849, Nísia Floresta publicou uma poesia sobre a Revolução Praieira, A lágrima de um Caeté e, com isso, abriu uma nova página no movimento romântico brasileiro. Os críticos privilegiaram a visão política, não dando tamanha importância para um aspecto destacado no poema: a espoliação das terras indígenas pelo colonizador, razão pela qual coloca-se a escritora ao lado de autores românticos que buscaram retratar em suas pátrias seus heróis nacionais. Assim, ela realiza ao inverso o caminho dos “descobridores”, desloca o indígena daquela visão exportada pelo colonizador e o apresenta no lugar (utópico) de protagonismo monumental na literatura, já que, no contexto real, podia-se ver um grande problema sobre a demarcação de terras indígenas que se arrasta até hoje. No conjunto de suas obras a respeito da escravidão, denunciou o cativeiro. Em Páginas de Uma Vida Obscura (1855), sua militância abolicionista foi registrada. Nesse mesmo ano, ela trabalhou por seis meses, voluntariamente, junto às vítimas de febre amarela.
Faleceu em 24 de abril de 1885, em Bonsecours, interior da França, vítima de uma forte pneumonia. Em 1954, teve seus restos mortais transladados para um mausoléu construído no sítio Floresta, em Nísia Floresta, local onde nasceu. A cidade Papari fora renomeada em homenagem à escritora, em 1948. Em sua literatura, publicou diversos artigos em revistas, nos quais discorriam sobre a condição feminina em várias culturas, além de publicar o livro“Conselhos à minha filha”, no qual aconselha sua filha, na época com doze anos, sobre a sociedade e o papel da mulher dentro dela, denunciando as dificuldades e o sofrimento sentido pelas mulheres do período. A questão feminista foi amplamente trabalhada em sua obra, pioneira do feminismo potiguar, além de defensora da educação feminina, inaugurou o Colégio Augusto para meninas, cujo nome homenageia seu falecido companheiro Manuel Augusto de Faria Rocha, morto em 1833. Além de feminista também era abolicionista, poetisa, romancista e cronista.
PRODUÇÃO DE NÍSIA FLORESTA
FLORESTA, N. A lágrima de um caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. Menezes, 1849.
______. Conseils a ma fille. Traduit de l’Italien par B.D.B. Florence: Le Monnier, 1859.
______. Conselhos à minha filha. Rio de Janeiro: Typographia de J. S. Cabral, 1842.
______. Consigli a mia figlia. Firenze: StamperiaSulle Logge del Grano, 1858.
______. Daciz ou a jovem completa: historieta oferecida a suas educandas. Rio de Janeiro: Typographia de F. Paula Brito, 1847.
______. Dedicação de uma amiga. (Romance histórico). Niterói: Typographia Fluminense de Lopes & Cia, 1850. Vol. 2.
______. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Recife: Typographia Fidedigma, 1832.
______. Discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta (18 de dezembro de 1847). Rio de Janeiro: Typographia Imparcial de F. Paula Brito, 1847.
______. Fany ou o modelo das donzelas. Rio de Janeiro: Edição do Colégio Augusto, 1847.
______. Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques. Paris: A. Chérié Editeur, 1878.
______. Itineraire d’un voyage en Allemagne. Paris: Firmin Diderot Frères et Cie, 1857. ______. Le Brésil. Paris: Libraire André Sagnier, 1871.
______. Le lagrime d’un caeté. (Trad. Ettore Marcucci) Firenze: Le Monnier, 1860.
______. O pranto filial. (crônica) jornal O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, 31 mar. 1856. p. 141-2.
______. Opúsculo humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. Silva Lima, 1853.
______. Páginas de uma vida obscura; Um passeio ao Aqueduto da Carioca; O pranto filial. Rio de Janeiro: Typographia N. Lobo Vianna, 1854.
______. Páginas de uma vida obscura. (crônica) In: Jornal O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1855.
______. Parsis. Paris: [s. n.], 1867.
______. Passeio ao Aqueduto da Carioca. (crônica) In: Jornal O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, 15 jul. 1855. p. 68-70.
______. Scintille d’un’anima brasiliana. Firenze: Tipografia Barbera, Bianchi & C. 1859.
______. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Paris: Libraire E. Dentu, 1864. v. 1.
______. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Paris: E. Dentu LibraireÉditeur et Jeffes, Libraire A. Londres, 1872. v. 2.
______. Um improviso, na manhã de 1. do corrente, ao distinto literato e grande poeta António Feliciano de Castilho. (poema) In: Jornal O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, 30 abr. 1855. p.157.
______. Woman. Londres: G. Parker, 1865.
PALAVRAS DE NÍSIA FLORESTA
“Todavia, apesar deste e outros documentos oficiais, apesar do quanto se tem dito a respeito dos obstáculos que retardam os progressos do nosso ensino público, muitas pessoas recreiam-se aplaudindo a admirável rapidez com que marcha a civilização entre nós. […] Quando o mesmo governo confessa, à vista de provas autênticas, ser por toda parte do Brasil pouco lisonjeiro o quadro que apresenta o estado da instrução pública, devemos nós regozijar-nos da marcha progressiva de nossa civilização? Cometeríamos um grande ato de injustiça se, como aqueles seus apologistas, deslumbrados da perspectiva fosforicamentebrilhante das reuniões de nossas capitais – entre as quais tanto sobressaem as desta Corte, foco da civilização brasileira – esquecêssemos as nossas meninas do interior das províncias, condenadas ainda à sorte de suas mães sob o regime colonial.”
(Trecho da obra Direitos das mulheres e injustiça dos homens, no qual a autora crítica as escolas e o ensino, utilizando dados oficiais do ano de 1852, destacando a situação relativas às meninas. (Floresta: 1989, pp. 84-85).
PRODUÇÕES SOBRE NÍSIA FLORESTA
ALVES, Constâncio. Nísia Floresta Brasileira Augusta. RIBEIRO, João (Org.) Almanaque Brasileiro Garnier. Rio de Janeiro, Anno IX, 1911.
CÂMARA, Adauto. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1941.
CASCUDO, Luís da Câmara. O sítio Floresta. Acta diurna. In: INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. O livro das velhas figuras. Natal: IHGRN, 1978.
CASTRICIANO, Henrique. Nísia Floresta. In: RIBEIRO, João (Org.) Almanaque Brasileiro Garnier. Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1930.
CASTRICIANO, Henrique. Uma figura literária do Nordeste: livro de Nordeste. (Edição fac-similada. Introd Mauro Mota. Pref. Gilberto Freyre) Recife: Arquivo Público Estadual/ Secretaria da Justiça, 1979.
CUSTÓDIO, Tereza. Nísia Floresta, quem foi?
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Ed. UFRN, 1995.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta Brasileira Augusta: estudo de vida e obra. In: GOTLIB, Nádia B. (org.) A Mulher na Literatura. vol. II. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1990. p. 113-7.
DUARTE, Constância Lima. Nos primórdios do feminismo brasileiro: direitos das mulheres e injustiça dos homens. In: GOTLIB, Nádia B. (org.) A mulher na literatura. vol. III. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1990. p. 38-41.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: entre o mito e o estigma. In: SOUZA, Eneida Maria; PINTO, Júlio César Machado (orgs.). Anais do I e II Simpósios de Literatura Comparada. Vol. II. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1990.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: entre os direitos e os deveres das mulheres. In: VIANNA, Lúcia Helena (org.). Anais do IV Seminário Nacional Mulher e Literatura. Niterói: UFF/RJ, 1992.
DUARTE, Constância Lima. Le mythe de la maternité en France auXIXe siècle: lecture de La Femme, de Nísia Floresta. In: MATTOSO, K. Q.; SANTOS, I. M. F.; ROLLAND, D. (coords.). Les femmes dans la ville: un dialogue franco-brésilien. Paris: Centre d’Études sur le Brésil, Presses de l’Université de Paris-Sorbonne, 1997.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta Brasileira Augusta. In: MUZART, Zahidé L. (org.). Escritoras brasileiras do século XIX. Antologia. vol. I. Florianópolis: Mulheres/ Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1999.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta e Mary Wollstonecraft: diálogo e apropriação. In: RAMALHO, Christina (org.). Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexões críticas. Rio de Janeiro: Elo, 1999.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: a primeira feminista do Brasil. Florianópolis: Mulheres, 2005.
LIMA, Oliveira. Nísia Floresta. In: Revista do Brasil, Rio de Janeiro, dez. 1919.
LINS, Ivan. Nísia Floresta: história do positivismo no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. Vol. II (1794-1855). São Paulo: Cultrix/Edusp, 1977-1978. p. 263, 306, 307, 375, 399, 407, 431, 431, 461, 500, 506.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. Vol. III (1855-1877). São Paulo: Cultrix/ Edusp, 1977. p. 94, 126, 204, 344, 416, 417.
MELO, Veríssimo. Nísia Floresta: patronos e acadêmicos. Vol.1. Rio de Janeiro: Pongetti, 1972.
OSORIO, Fernando. Mulheres farroupilhas. Porto Alegre: Globo,1935.
PAIVA, Kalina Alessandra Rodrigues de. Nísia Floresta: o canto do Papary. In: CASTRO, José (Org.) Biografias literárias. Natal: UBE/RN, OffSet, 2021. p. 261-266.
SABINO, Ignez. Mulheres illustres do Brazil. (pref. Arthur Orlando) Rio de Janeiro/ Paris: H. Garnier, 1899. p. 171-77.
SEIDL, Roberto. Nísia Floresta: 1810-1885. A vida e a obra de uma grande educadora, precursora do abolicionismo, da República e da emancipação da mulher no Brasil. Rio de Janeiro: [s. n.], 1938.

Auta Henriqueta Rodrigues de Souza, poeta potiguar negra, utilizou o pseudônimo: Ilário das Neves. Contudo ficou conhecida como Auta de Souza. Escritora pertencente ao Período Literário de Formação, movimento pioneiro, visto que, nessa época, a literatura manifestava, de maneira intuitiva, a noção de terra natal.
Nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Seus pais morreram quando ela era criança e Auta foi criada pelos avós maternos em Recife. Aos 12 anos, uma nova tragédia marcou sua vida: seu irmão mais novo morreu queimado em uma explosão, provocada acidentalmente por um candeeiro. Educada em colégio católico, rapidamente aprendeu Francês, Literatura, Inglês, Música e Desenho. Em razão do diagnóstico de tuberculose, aos 14 anos, teve que deixar o colégio, mas continuou sua formação intelectual sozinha, tornando-se autodidata. A doença, que já havia atingido seus familiares, não impediu que ela começasse a escrever e a declamar, hábito muito comum em reuniões sociais na época.
Em 1894, ela começaria a escrever para a revista Oásis, de circulação restrita, pois era veículo do grêmio literário Le Monde Marche. Começou a escrever versos e a publicá-los em jornais do estado do RN, uma vez que este era o meio em que circulavam as produções literárias. Assim, em 1896, publicou alguns poemas no jornal A República. Em 1897, colaborou com o jornal A Tribuna, reunindo textos de 1893 a 1897, sob o título de Dhalias. No ano seguinte, escreveu no jornal Oito de Setembro e na Revista do Rio Grande do Norte. Ainda em 1987, mudou o título da sua produção poética para Horto, seu futuro livro de poesia, publicado ainda em vida. Em 1911, foi fundado pelo seu irmão Henrique Castriciano o Grupo Escolar Auta de Souza, em Macaíba. Faleceu em 07 de fevereiro de 1901, de turbeculose. Foi enterrada no cemitério do Alecrim, porém, em 1908, teve seus restos mortais transladados para o jazigo da família na igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba.
Entre uma publicação e outro, por volta de 1895, conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, preocupados com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à doença.
Auta é uma poetisa muito conhecida pelos praticantes do Espiritismo, certamente pelo conteúdo místico atado à inspiração cristã. Ela inovou ao escrever profissionalmente numa sociedade em que este exercício era reservado exclusivamente aos homens. Seus versos retrataram suas experiências e ficaram bastante conhecidos ao serem incluídos em várias antologias e manuais de poesia das primeiras décadas do século XX. Em 14 de novembro de 1936, a Academia Norte-rio-grandense de Letras instalou a cadeira 20, dedicada a poeta macaibense em reconhecimento à sua poesia.
PRODUÇÃO DE AUTA DE SOUZA
SOUZA, Auta de. Horto. Natal: Tipografia A República, 1900.
PALAVRAS DE AUTA DE SOUZA
Ao Pé do Túmulo
Aos meus
És o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.
Amarguras da terra! Eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo
Ó almas de minh´alma abençoadas.
Quando eu daqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…
Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no Céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais.”
PRODUÇÕES SOBRE AUTA DE SOUZA
ARAÚJO, Thaís. Auta de Souza – Poetisa. In: HERÓIS de Todo Mundo: a cor da cultura. Direção de Luiz Antonio Pillar. Rio de Janeiro: Globo Filmes/Futura, 2014. 92min. Disponível em: <https://canaisglobo.globo.com/assistir/futura/herois-de-todo-mundo/v/11497288/> Acesso em: 15 de agosto de 2024.
CASCUDO, Luís da Câmara. Vida Breve de Auta de Souza. Natal: EDUFRN, 2008.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras (1711-2001). São Paulo: Escrituras, 2002.
GALVÃO, Cláudio Augusto Pinto. O cancioneiro de Auta de Souza. Natal: EDUFRN, 2001.
GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Auta de Souza: a noiva do verso. Natal: EDUFRN, 2013.
________. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza [1876-1901] In: FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Observa Nordeste. Natal: FUNDAJ, 2003.
JÚNIOR, José Soares de Veras. Academia Norte-rio-grandense de Letras Ontem, Hoje e Sempre: 70 anos. Rumo à luz. Vol. I Natal: Academia Norte-rio-grandense de Letras, 2006.
LOBO, Luiza. Guia de escritoras da literatura brasileira. Rio de Janeiro: EDURJ, 2000.
ONOFRE JUNIOR, Manoel. Salvados. 2ª ed. Natal: Sebo Vermelho, 2000.
SCHUMAHER, Schuma (org). BRAZIL, Érico Vital (org). Dicionário de Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000.

Poetisa, dramaturga, educadora e historiadora, Isabel Gondim pertencente ao Período Literário de Formação, movimento pioneiro, visto que, nessa época, a literatura manifestava, de maneira intuitiva, a noção de terra natal. Isabel Urbana Carneiro de Albuquerque Gondim nasceu em Papari, atual Nísia Floresta, em 05 de julho de 1839. Dedicou sua vida à literatura, às pesquisas, à educação feminina e ao ensino. Foi a primeira mulher a se tornar sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Instituto Arqueológico Pernambucano.
Essa educadora nísia-florestense era uma mulher letrada oriunda de uma família que havia se envolvido em diferentes capítulos da história nacional, como a sedição de 1817 e a Guerra do Paraguai. Afilhada de André de Albuquerque, o qual participou do governo revolucionário na capitania do Rio Grande do Norte, em 1817, Isabel Gondim experienciou um evento traumático: o falecimento de seus dois irmãos em viagem para os campos de batalha no Paraguai, fato que contribuiu para que investigasse a história pátria bem de perto.
Patrona da cadeira 8 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, publicou livros didáticos direcionados à formação da mulher, como por exemplo, Reflexões às Minhas Alunas (1874), destinado à educação da mulher. Escreveu em 1900, com segunda edição em 1913, o livro ufanista O Brasil – poema histórico do país. Um texto em três cantos sobre a história do Brasil, um canto que vai do Descobrimento à Independência, outro que vai da Independência até a Guerra do Paraguai e outro que vai até a Proclamação da República. Em 1908 publicou Sedição de 1817 na Capitania ora Estado do Rio Grande do Norte, em que narrava os acontecimentos do movimento de 1817 e a vida de André de Albuquerque Maranhão. Além desses, publicou o livro de poemas A Lira Singela cujos escritos foram dedicados à Natal, à sua família, à pátria, à mulher e, por fim, de cunho confessional como um autorretrato; e O Preceptor (1933). Deixou inéditos ainda: O Rio Grande do Norte, Noções Históricas, Resumo da História do Brasil, Elementos de Educação e Curso Primário de Caligrafia.
A Escola Estadual Isabel Gondim, localizada no bairro das Rocas, em Natal, homenageia seu nome. Juntamente com sua conterrânea Nísia Floresta, Isabel Gondim é uma das pioneiras da intelectualidade no Rio Grande do Norte. Faleceu em 10 de junho de 1933, em Natal.
PRODUÇÕES DE ISABEL GONDIM
GONDIM, Isabel. A Lyra singela. Rio de Janeiro: Imperial Duco, 1933.
_______. O Brasil: poema histórico do país. 2. ed. Rio de Janeiro: Papelaria Americana, 1913.
_______. O preceptor. Recife: Imprensa Industrial, 1923.
_______. O Sacrifício do Amor. Drama em cinco atos. Rio de Janeiro: Tipografia e Litografia Comercial, 1909.
_______. Reflexões às minhas alunas. 2. ed. Rio de Janeiro: Tipografia Popular de C. Vasconcelos, 1879.
_______. Sedição de 1817 na Capitania ora Estado do Rio Grande do Norte. Drama. Natal: Tipografia da Gazeta do Comércio, 1908.
PALAVRAS DE ISABEL GONDIM
-Eis que surge um novo inimigo audaz!
De nobre estímulo o decoro assume,
E ás armas corre- do guerreiro ardor
Tepidas ainda– em repouso apenas,
Dellas provando o marcial valor.
(…)
Todo o paiz repercutira o brado!
De Sul a Norte impulsionado vae!
O’ Brazileiros em defesa á patria-
A guerra! A guerra contra o Paraguay!
(…)
Legiões de bravos se avolumam, crescem
De todo o império a despovoar terrenos;
Grandes provincias exuberam em tropas!
A minha, embora exigua não deu menos.
Honrando a origem em brazileo sólo,
No brio e denôdo oh! ninguém o vence!
Umpasso em frente na vanguarda ensaia!
Marcha á defesa o norte rio grandense.
Trechos do poema O Brasil: poema histórico do país. (1913)
PRODUÇÕES SOBRE ISABEL GONDIM
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras. São Paulo: Escrituras Editora, 2002.
DUARTE, Constância Lima (org.). DUARTE, Constância Lima (org.). MACEDO, Dica Cunha Pe- reira (org.). Literatura do Rio Grande do Norte: antologia. 2. ed. Natal: Fundação José Augusto, 2001.
MACEDO, Diva Cunha Pereira (org.). Escritoras do Rio Grande do Norte: antologia. Natal: Jovens Escribas, 2013.
MORAIS, Maria Arisnete Câmara de. Isabel Gondim: uma nobre figura de mulher. Natal: Terceirize, 2003.
SILVA, José Guilherme Oliveira da. A Guerra do Paraguai e o ensino de história: os voluntários da pátria a partir de periódicos e do poema “O Brazil” de Isabel Gondim. 2023. 20f. TCC (Licenciatura em História), Departamento de História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2024.
SOARES, Lenin Campos. Isabel Gondim, a historiadora. 2019. Disponível em: https://www.nataldasantigas.com.br/blog/isabel-gondim-historiadora. Acesso em: 01 junho de 2024.