Hugo Tavares

Quando, no início do século XX, há, no Brasil, uma apropriação e valorização dos temas rurais pelos músicos da cidade que se fazem apreciar também pelo público citadino, verifica-se o sentimento de nação politicamente alimentado pelo advento da República, que suscita um clima de euforia e ebulição social no País.  Esse sentimento de nacionalidade, de unidade, traduzida na produção musical, no entanto, passa por uma visão nostálgica, romântica e, de certo modo, alienada do mundo rural. Porém, esse traço que põe em zona de convergência campo-cidade vai se renovando com as várias gerações de músicos – do samba do morro à bossa nova, com a singular batida do violão de João Gilberto – que se põem como intérpretes dos sentimentos populares, dando vazão a uma das nossas vertentes musicais – a música de protesto – cujo auge remonta ao final dos anos 60.
A renovação, entretanto, vem com a assimilação do dedilhar das cordas dos violeiros do Nordeste e também com sua permanência na nossa raiz musical, o que vai temperando essa busca do artista pelo seu próprio povo, por sua identidade, ao mesmo tempo em que dá vazão a seus anseios de liberdade.


(POETAS E CANTADORES)

É nesta fronteira – a da busca pela liberdade – que homem e artista se coadunam. Nessa linha tênue – se é que ela existe – que delimita onde termina um – homem, e inicia outro – artista, ou vice-versa, sabe-se da não vocação de ambos para o cerceamento. É quando sua alma e seu corpo gritam.


(SERTÃO, POESIA E POLÍTICA)

É assim que Hugo Tavares Dutra, radicado em Santa Cruz-RN, poeta, compositor, vê-se no mundo da arte. Paraibano nascido em Brejo do Cruz, no ano de 1956, foi levado para morar em Catolé do Rocha aos 2 anos de idade, onde passou sua infância e adolescência. Aí, forjou-se na arte. “A música começou lá em Catolé do Rocha, nas feiras. Ouvindo embolador de coco, violeiros; ouvindo cantadores de feira, repentistas; ouvindo a rádio Alto Piranhas, de Cajazeiras; ouvindo a Rádio  Rural de Caicó, a rádio Difusora de Mossoró. Os meus primeiros contatos com música foram esses.”
Por adoção “potiguano”, neologismo por ele criado, através do qual assume sua identidade potiguar, percebe-se não como um artista, mas como “uma pessoa comum, um cidadão, preocupado com a juventude, principalmente; com o Brasil; com a educação; com a saúde”. Viu na arte o instrumento com que foi se “botando” no seu espaço, na sua comunidade.


(O POETA E O MONSENHOR)

Em que pese o seu discurso “eu não me defino como artista”, evidenciando uma suposta inconsciência do seu próprio fazer, o seu processo de criação artística, no entanto, revela não a “pessoa comum”, mas o artista profundamente preocupado com sua produção. “Eu mesmo não concebo o artista naquela história do trabalho – eu faço a música e vou vender… Eu nunca dei uma música minha a ninguém, nem vou dar. Porque eu faço com um amor tão grande que aquilo é como se fosse um pedaço meu que vai”, afirma convicto.


(NAS ONDAS DO RÁDIO)

Admirador profundo de Fabião das Queimadas, além de pesquisador de sua obra, Hugo Tavares é o artista que caminha na esteira da tradição musical nordestina, no coco, no baião, no xote, na embolada, reconstruindo-a em sua temática, com os elementos da realidade cotidiana, especialmente naquilo que toca o cultural, o social e o político. Como analisa o próprio Hugo, “na música não tem mais nada de novidade. Novidade na música é quando você pega um texto e nele você tem alguma coisa nova para ser dita. Mas na musicalidade já fizeram tudo.”


(FABIÃO DAS QUEIMADAS, O escravo que cantava)

Para Hugo, o novo está ancorado no teor libertário que perpassa toda sua produção. E, logicamente, habitar uma região profundamente marcada pela política dos coronéis (o que já lhe rendera uma prisão por ousar montar uma rádio comunitária), conduz-lhe a garimpar as imagens que poderão romper as várias formas de grilhões.
“A arte, por mais simples que ela seja, desde que contextualizada para o soerguimento do ser humano, principalmente, vai encontrar espaço em qualquer lugar. Cantar uns versos como ‘Eu nunca vi constelação de patente/ orientar navegante/ nem dar luz a cantador’ é muito forte, vai deixando alguma coisa na cabeça de alguém e estimulando a quem está entrando nessa seara a cuidar para que a obra dele não seja descartável, banalizada. Então, se você como cidadão, tiver consciência do mundo, do que você pode contribuir, pode, através da arte, ser um instrumento desse.”


(OLHAI OS GRILOS DOS CAMPI)

Sendo o próprio Hugo Tavares instrumento da arte, nestes versos de “Rebento potiguano”, por meio da metonímia sintetiza a condição de existência para todo artista: não abrir mão de sua identidade e de sua autonomia:

“O meu sotaque
é daqui é soberano
O meu eu é soberano
É de pedra e de pó.”